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quinta-feira, 25 de abril de 2013


   Estamos mudando outra vez. Outra vez.
   Já perdi a conta das vezes em que isso aconteceu, mas lembro como odiei cada uma delas. Tanto quanto odeio essa.
   Os pedaços de móveis que restaram ficam largados pelos cantos como a ossada não enterrada de nossa vida aqui. A casa vazia ecoa as conversas desanimadas como sussurros amargurados ou discursos agudos de felicidade forçada como um doce enjoado demais.
   Odeio mudanças e todo seu entrementes. A poeira no ar me inspira uma crise e espirro incessantemente, perdendo o fôlego. Me sinto péssimo. O pó gruda na minha pele, deixa meus dedos ásperos e minha alma opaca.
   A sensação de abandono pesa no ar com cheiro de ácaros mortos e o movimento de entrar e sair suja o piso com lama escura.
   É raro que eu seja acometido por tristeza, mas agora não consigo impedir o nó amargo e melancólico que se forma na minha garganta. Meu corpo dói pela noite mal dormida, minha cabeça pesa pelo sono atrasado.
   Uma raiva azeda me consome pela interrupção inevitável causada pelo evento. A vida pára. Perco tempo. Desprezo cada segundo.
   É ainda pior mudar no outono. Muito pior. A chuva que eu adoro se torna ridiculosamente odiosa e encharca meus sapatos, cola minhas roupas na pele. Sinto frio - coisa rara de acontecer. Embora eu acredite que haja um motivo: a tristeza que me deprime reduz a minha chama interna. Sem ela não sou ninguém, não sou nada, não sou eu.
   Não consigo respirar. A doença cresce dentro de mim. Não consigo respirar. Falto meu compromisso matinal. Passo mal. Droga.
   A instabilidade vai de encontro ao meu modo de ser, me deixa indisposto e insatisfeito.
   Quero um café forte e escocês, com muito whisky. Um café e um cafuné, pois o engenheiro está certo, afinal: somente a mudança é permanente.
 Mente quem diz não mudar. Mente quem promete mudar. As coisas mudam. As pessoas, não. Ou talvez mudem. Não importa. Depois da porta dá no mesmo. Depois. Pois de qualquer modo já estaria feito. É mesmo um defeito ser tão intransigente. Mas há gente que merece. Parece que generalizar é errado. Não importa. Talvez eu mude algum dia.
    Confesso que, mesmo depois desse desabafo, não me acho nem um pouco mais leve.

   O peso da mudança é tudo que eu posso carregar.

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