Páginas

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Foi por amor.


    Meu corpo está morrendo. Está morrendo e não importa o quanto ela tente me reviver, não é possível. Suas mãos percorrem meu corpo com toda a firmeza que sua pela suave lhe permite, mas o toque elétrico de seus dedos não conseguem retirar mais do que gemidos fragilizados dos meus nervos falidos. Eu tentei fazê-la desistir. Tentei explicar que meu corpo não duraria, independente do quanto ela tente mesclar sua clareza à rigidez escura que me torno a cada dia. Tentei dizer aos seus olhos azuis que logo não terei mais luz para ver seu sorriso. Ela não acreditou. Nem por um único instante. Mas é verdade. Sempre foi.
     Ela é pra mim uma estrela incandescente, como nosso abrigo é um porto aquecido no meio dessa planície gelada. Ela sempre foi. E nesses últimos dias tentei dizer que seus beijos me eram o paraíso, mas que minha tristeza aumentava a cada toque. Não por mim, mas por ela. Quis elucidar a tristeza numa risada, quando dizia que logo não terei vivacidade para provocar-lhe ciúmes sem fundamento; não funcionou.
    Ela era. Ela foi. Não, não.. Ela é. É tudo.
    Tentei fazê-la esquecer de mim. Quis mesmo afastar seu lindo sorriso e seus olhos profundos. Quis afastar suas mãos delicadas e seu entrelaçar de pernas brancas. Quis afastar sua pele que nunca vira sol forte e seus cachos de ouro. Não me arrependo. Mas sabendo que fracassei, espero que ela guarde de mim um pedaço quente e bonito, uma lembrança agradável. O oposto da criatura gélida, escura e decadente que me tornei. Espero que não me encontrem.
    De despedida deixei-lhe um beijo nos lábios adormecidos e uma rosa vermelha na cama solitária. Uma foto antiga pendurada na porta e um café com leite dentro do microondas. E parti. E aqui vou morrer e espero que ninguém me encontre, nunca. Que esse cadáver frio durma eternamente no frio. A neve está molhada, gelada, mas não sinto frio. Sinto calor, um abraço aconchegante e confortável. Sinto sono, aqui nesse monte de gelo, acolhido pelos braços da morte. Parto feliz. Espero que ela possa me perdoar. Não faria nada para magoá-la nunca. E o que fiz, fiz porque era necessário. Morro aqui, sozinho, escondido, cansado, mas feliz. Foi por amor.

2 comentários: