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domingo, 13 de outubro de 2013

Baião, Prosa e Verso II

  


Um passeio pelo interior e meia duzia de pensamento de um boi velho

 Um sol de rachar batendo na testa desde antes de mei' dia, Tonhão num aguentou e deixou a banca do Jogo do Bicho sem alma viva e foi-se pra tomar um pileque de cachaça com pão... Arre, Tonhão.
Meu jegue já manco de véio, esse peste ao invés de morrê logo duma vez, fica me atazanando a consciência. Toda vez que aponto a espingarda pro bicho lembro do meu vozinho, dizendo que aquela besta feia tirou a família toda do ralo na cacunda, arrastando carroça lotada de espiga... Num consigo atirar de jeito nenhum e o bicho tomém teima em morrê. Nem trabalha nem morre... Só come a comida das galinha.

   Passo da igreja. "Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo...", arre! Mas num é a sobrinha da Dona Zeza se amulengando com menino do litoral... Aaahh que isso vai termina na pêxera! Ah, se vai! Ohoho! Tem padre demais nessa missa... Que o noivo da piveta nem casô e já tá levando é chifre...

  "Dia, Mariaria, formosura demais pra esses vinte anos!"
   "Deixe de ser sem vergonha, cabra véio, que já passei dos cinquenta e você sabe bem disso!"
   "Sabê, eu seio, mas pudia saber um poco mais, num acha não?"
   E ela ri e se esconde da janela, cantando aquele grito meio gemido que conheço de cama: "É véio, é feio, mas é safado quinem boi novo!"

   Cemitério... Lembra de painho, vozin, voinha... Quatro de duas mão de irmão que foro pra cova antes de levar uma mulher pro casório... Tristeza. Essa bola de ferro sujo pesando no peito e no bucho. E um poco de fome, também. Vo fazê quinem Tonhão... Pisá pro bar, tomar uma cachaça com pão, esquecer esse jegue e olhar as flor nascendo, porque choveu faz nem três dia, e quando chove, bate uma felicidade de viver nesse sertão.

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