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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Adormeço

Tornei-me um vislumbre. Uma sombra. Um reflexo.
Apenas um eco do narciso que fui.
Apenas um músculo, apenas uma memória. Meu coração agora é asséptico.
Não tenho mais rosas, não tenho mais.
Meu espelho rachou-se. Como parte-se a moldura de um retrato.
Parte-se. Parte-se.
Partistes.
As escrituras da minha alma permaneceram. Lembranças, sorrisos, mágoas.
Notas secretas, escondidas onde ninguém pode achar.
Mas sem cores. Sem vermelhos, sem azuis. Nem mesmo uma branca e vazia tela.
Apenas escuridão. Apenas madrugada.
Sou escuro por dentro. E frio. Como a noite que me faz às vezes de berço.
Cubro-me com seu manto e escondo-me da luz.
Estou me perdendo e apenas minhas próprias palavras protegem-me da insanidade.
Elas trazem para mim o passado. Levam-me também para o futuro.
Confio meu destino nesta única ação.
E escrevendo, esqueço.
E finalmente adormeço.

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