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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Brazuca

 

Entrou na grande área. Bola no pé. O coração batendo junto com o pomo de Adão como um bloco de carnaval. Olho no olho do goleiro, dois zagueiros se chegando para cortar o ataque.

   Entrou no camburão, empurrado com violência. Canhão na cabeça. O coração caído no fundo do corpo junto do estômago, como animais encolhidos. Olho no chão, as lágrimas descendo pela face.

   Driblou o primeiro zagueiro, tirando um urro indignado do outro garoto. Nem tropeçou quando o segundo garoto tentou dar-lhe um carrinho. Tão perto, tão perto. O goleiro retesou os músculos, preparando-se para defender aquele portão branco.

   Esquivou das latas de lixo, ouvindo os sussurros dos homens atrás de si. Tropeçou nos paralelepípedos ao ser empurrado contra a parede. Tão perto, tão perto. O homem ergueu a arma, preparando-se para dar o tiro. 

   - A multidão se levanta, a tensão é grande! - A voz do narrador se ergueu junto com os torcedores do estádio. - Ele driblou os zagueiros, só resta o goleiro.

   - Te ajoelha, moleque. Tas fudido. - A voz do carrasco lhe acertou junto da coronha, jogando-o no chão. - Chora não, viado. Morre que nem homem!

   Parou subitamente. O goleiro se atirou, jurando que a bola lhe vinha. Chutou, mandando direto pra rede.

   Engoliu o choro. O executor atirou, jurando que ele era bandido. Morreu, caindo direto pra vala.

  - É gooooooool! - Gritou o narrador no autofalante, sua voz se perdendo na voz da multidão.

  - Vamo embora. - Sussurrou o atirador pro companheiro, sua voz se destacando no silêncio do beco.


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