Tocou uma vez. E duas. E três. O telefone vibrava sobre a mesa, iluminando o quarto com uma luz fantasmagórica. O garoto estendeu a mão, com os olhos semiabertos, tomou o celular na mão e tentou ver quem o ligava, ofuscado.
"Duas e cinquenta e quatro da manhã", pensou ele, olhando o visor e deslizando o dedo na tela para atender.
- Boa noite. - Disse a voz do outro lado da linha. - Desculpa ligar essa hora.
- São três da manhã. - Falou ele, carrancudo e sonolento.
- Eu sei que são três da manhã, seu bobo. Mas sabe que quando eu tenho algo pra te falar, não posso esperar, né?
- Você podia esperar até amanhã, droga.
- Não, não. Você sabe que não. Agora levanta.
- Qual é? Sério?
- Claro que é sério, alguma vez te liguei a essa hora sem ser sério?
- Posso dizer ao menos uma dúzia de vezes.
- Águas passadas. Enfim, levanta-te.
O garoto se esgueirou da cama como quem sai nu ao frio, amaldiçoando-a mentalmente. Cambaleou até perto da porta, fechou os olhos e acendeu a luz. Aparentemente o sol havia chegado mais cedo, na forma de uma lâmpada fluorescente de 440W e invadiu o quarto, rajando tudo de branco.
- Eu te odeio. - Ele resmungou.
- Não, você me ama.
- Tá. Eu te amo... Mas te odeio tanto quanto.
- Não importa. Está acordado?
- Agora estou. E maldita é você, com certeza não conseguirei mais dormir.
- Esse é o objetivo. Agora comece a escrever. - Satisfeita, a consciência do garoto desligou o telefone, deixando que outra parcela de sua mente entrasse em convulsão.
Sentou na escrivaninha, tirou o caderno da gaveta inferior, escolheu uma caneta preta entre as quatro que estavam misturadas à bagunça de fios na gaveta superior e começou a escrever. E começou.
A madrugada se arrastou e o sol já se esgueirava sobre a linha do horizonte. O garoto sangrou tinta por horas e horas e horas. A criatividade noturna jorrou até nada restar. Matou ideias, matou o sono, matou o tempo. Por fim caiu inconsciente sobre seu monstro Frankestein. Um texto de nove páginas e três quartos. Havia falecido um escritor. Ou melhor. Um escritor havia se matado ali naquela escrivaninha, para que uma história nascesse.
Afinal todos nós deixamos um pedaço fugir de nós em cada linha escrita.
No jornal da tarde, a notícia abalava o meio poético.
"Morre mais uma vez o morador da casa nº345 da rua Dr. Paulo Neto... Outra vez a causa da morte é exaustão e overdose de escrita. Acredita-se que o escritor tenha cometido suicídio literário ao parir mais uma história. Parentes estão chocados e conhecidos parecem felizes ao frequentar o funeral do falecido no endereço naoapaguealuz.blogspot.com, junto do próprio escritor e de sua história recém nascida, com oito parágrafos e catorze linhas de diálogo."

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