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terça-feira, 18 de março de 2014

A Outra


   Deixei-a de pernas bambas. Literalmente falando. As luzes piscavam e, enquanto as batidas do meu coração distavam ligeiramente da frenética batida da música, eu a assistia fazer suas últimas caras e bocas. Que delicioso retrato.

    Sorri de canto e me afastei, voltando à dança enquanto ela apertava as coxas com os lábios comprimidos. A vibração do energético pulsava no meu sangue e eu ansiava por mais, enquanto ela ofegava, tentando se recuperar. Fechei os olhos, sentindo a insensatez se mesclar ao meu desejo. Reabri as pálpebras, olhando em volta. E lá estava ela. A outra.

       Proibida. Intocada. Perfeita. E eu sabia que ela me desejava tanto quanto eu a ela. Já vira em seus olhos. Mas não era o bastante.

         Eu a chamei e ela veio. Veio rebolando, veio entregue, insensata, instintiva. Me confessou o que eu já sabia, mais com o corpo que com os lábios. E que corpo ela tem.

        Num reflexo de consciência, a pedi que me negasse tudo. Impossível. Ela não conseguiria - tal como eu - suprimir por completo aquela luxúria.

        Lascivos como espíritos de fogo, deixamos que a escuridão escutasse as confidências trocadas por nossa pele. Que escondesse nossos pecados. Que a madrugada confortasse o suplício do nosso desejo.

     Assim torturados por nossos instintos, dançamos e deixamos a noite acabar.

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